Cadê a hombridade?
setembro 17, 2019

No metrô, o anúncio de um curso sobre criatividade. Muito se fala sobre ela nas organizações. É sabida como um diferencial competitivo, é almejada como possibilidade de estar sempre à frente, como forma de destacar-se nesse tão diverso mercado. Sair do lugar comum, pensar fora da caixa, antecipar soluções cujos problemas ao menos são conhecidos. Uma chuva de chavões, uma enxurrada de estratégias vazias de sentido.

Criar é um ato sublime do ser humano. Diz-se que somos os únicos a criar, uma vez que os animais apenas reproduzem aquilo que o instinto lhes sugere. (Em tempo: assim é dito, mas há de se contestar; talvez sejamos mesmo o macaco que não deu certo.) Criamos possibilidades, produtos, serviços, demandas, ofertas, necessidades, soluções. Criamos naturalmente: a receita do jantar com os ingredientes parcos disponíveis na despensa; os improvisos para passar o mês com o salário apertado; as surpresas amorosas para um encontro especial. Criatividade como a “atividade de criar” aparenta não ter mistério. A não ser por um aspecto: há de existir o desejo, a centelha do incômodo, quiçá da indignação, para que nosso cérebro se revolte com as sinapses de sempre e busque conexões alternativas. Um ambiente insalubre de pressão, cobrança, desunião, desconfiança, mercantilismo e manipulação gerará inovações pífias. Não há instrumentos de controle capazes de extrair à força as ideias das pessoas. Ou elas se sentem desejosas em contribuir ou nada feito. A lei do mínimo esforço é a regra, quando o sentimento não é de construção coletiva. E, se há necessidade do uso da potência intelectual e intuitiva de cada um, num ambiente desfavorável, acabará sendo em benefício próprio.

Parafraseando Freire, ninguém inspira ninguém. Os homens se inspiram em comunhão. A partícula “co”, de cooperação, comunhão, colaboração, é fundamental para a criatividade, pelo menos aquela esperada nos ambientes de trabalho. Ou, tudo isso, talvez possa ser substituído por gênios eremitas que criam como que por geração espontânea. Ainda assim será possível, independente de causa e propósito? Independente de companhia e troca? Independente de razão e emoção? Creio que nossas ideias são reflexo límpido de nosso estado de espírito. Criar é manifestação da intuição, é ação inexplicável, insubordinada. Nossa obra reflete quem somos e como nos sentimos. Para um trabalho no estado da arte há de se contar com relações transparentes e desejos declarados, sem entrelinhas. Vai ver por isso distopias nos enquadram como robôs. Será o futuro inevitável?

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