Sobre aprenderes

2 de agosto de 2017
Cadê a hombridade?
2 de agosto de 2017
 

Quantos jargões e lugares comuns habitam a educação. Talvez por ser algo que todos nós saibamos o que é, mas definir conceitualmente torna-se um desafio. Parafraseando Cecília Meireles: Aprendizado é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda. Tão intrínseco ao nosso viver, que talvez fiquemos cegos ao processo que faz germinar o aprender.

Não tenho grande apego às terminologias, e busco administrar meus preconceitos. Há tempos imputaram pudores com o termo “ensinar”, “professor”, “treinamento” e tudo o mais. Comove a mim o desejo de fazer diferente, repensar os próprios comportamentos, desenvolver o olhar crítico à vida, à maneira de fazer as coisas, desempenhar o trabalho, relacionar-se com a sociedade. Se o cerne é esse, eis a moradia da aprendizagem. Provocar o que está estabelecido e questionar se existem maneiras de colocar-se à prova em novas possibilidades.

Hei de assumir que meu olhar ainda é aquele olhar ingênuo calcado na crença de que a educação é promotora do bem. Tal qual qualquer método, caberá à consciência do indivíduo que o manipula realizar incursões em prol do bom, do belo e do verdadeiro ou da mera destruição. Pureza excessiva, eis o dilema filosófico incutido em tais questões. Porém, quando parto da premissa que a educação só cumpre seu papel quando participativa, colaborativa, construída a muitas mãos, creio minimizar esse senso maligno. Há de se expressar, portanto, que minhas premissas - que alicerçam o meu trabalho - são a de que o indivíduo humano é, em essência, bom. Os mais céticos que me perdoem, mas tenho provas suficientes ao longo de uma vida nem tão extensa, que a maioria deseja o bem. Com variações de intensidade, alternância de medos e do instinto de preservação, queremos uma vida individual muito boa, preferencialmente que não seja às custas da destruição de outrem. O que nos falta, na maioria das vezes, é a consciência lúcida e desperta a respeito do meio em que estamos inseridos. E, sendo o “único animal racional”, só cabe a nós a responsabilidade por este entorno. Taí a educação presente, mais uma vez. Para nos desalienar e mostrar o tamanho da nossa responsabilidade diante deste mundo.

Compreender o vulto das ações humanas, em quaisquer relações que estejam inseridas – no ambiente do trabalho, das relações pessoais, na família, na saúde, entre os relacionamentos. Se há presença humana, a educação deve ser a companhia permanente. Quiçá viver seja isso: aprender a cada dia (olha eu aqui gerando os jargões que critiquei ainda há pouco!). Quão mais intensamente, mais vida pulsando em nós. Podemos desanimar diante da máxima socrática, “só sei que nada sei”, e estagnarmos nossa educação – se ele que era ele nada sabia, onde chegarei eu, pessoa comum? Mas eis a delícia das utopias. Saber inalcançáveis, mas por puro desplante, seguir a busca incansável. Ampliar o impacto no mundo por meio do saber. Convidar pessoas a refletir e buscar novos caminhos. Observar, como criança, as impressões, percepções, a formação dos conceitos que temos.

De fato, nada sabemos. Talvez, nada saberemos. Mas, manter-nos incomodados, em marcha, desejosos por aquilo que está por vir. Com esperança de que esse vir-a-ser possa ser melhor do que já fomos.

O filme “Até o último homem”, pautado em história real de Desmond Doss, relata a experiência do primeiro “objetor de consciência” a receber uma medalha de honra do exército americano. Tive dificuldade em assimilar o termo “objetor de consciência”. Aliás, a palavra “objetor” nem consta de alguns dicionários. Mas, deduz-se que seja aquele que faz objeção a algo, em consequência de sua consciência. No militarismo, referencia-se aqueles que se alistam mas não aceitam desempenhar determinadas funções. No exemplo do filme, Doss faz objeção a tocar em uma arma, pelo fato de vê-la como um artefato gerador de morte. Pela clareza dessa consciência, segue um dia de esplendor sagrado, frente ao calvário dos colegas combatentes. Talvez pela educação, talvez pela consciência vicejante, seguiu seus princípios e superou dores e preconceitos que lhe foram inicialmente imputados.

Contudo, viver em anestesia, alheio ao que crê, apartado daquilo que concorda, faz de nós massa de manobra, insossa e indiferente. Não falo de grandes coisas – aliás nem nelas acredito. Falo das pequenas concessões todos os dias, o rabo recolhido entre as pernas “só mais essa vez”, o silêncio frente à injustiça, o desvio do olhar diante da violência, mesmo que sutil. Que a educação nos torne objetores de consciência para, assim, vivermos ao menos a nossa verdade. Não a verdade que sobrepõe aos demais, que humilha e tenta convencer ser o único caminho. Mas a autonomia real e a verdade pessoal de fazer aquilo que nossa consciência nos orienta.

E, a cada conversa, a cada interação, a cada partilha, dar-se a chance de refletir – estou fluindo com a manada ou é nisso que acredito, é isso que me mobiliza e orgulha? Que sejamos objetores de nossa própria consciência. Que estejamos cada vez mais despertos. Lampejo que depende do aprender, e o retroalimenta. Que não sejamos seres opiniosos, por desejos inadequados de status, bem querer ou aceitação. Mas que sejamos honestos conosco, inclusive, para colocar em xeque as verdades até então cridas.

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