Cadê a hombridade?

2 de agosto de 2017
Sobre aprenderes
2 de agosto de 2017
 

O bom e velho caminho do meio segue sendo um desafio permanente. Em todos os aspectos da vida. É notável a criação de artifícios performáticos em substituição daquilo que era natural e inerente às relações. A tecnologia usada como anteparo, defesa, traquitana esquisita que, na intenção, por vezes perversa, de aproximar, acaba destruindo relacionamentos.

Sarahah é o nome da invenção da vez. Criado por um saudita, tal nome significa franqueza ou honestidade. Seu intuito: permitir feedbacks francos, sem a barreira dos cargos. Já superou os 3 milhões de downloads.

3 milhões de pessoas declarando abertamente o que pensam e sentem umas pelas outras. Mas, se preciso me proteger com o anonimato, será que minha opinião deveria ser levada em conta? Vejo imensos pudores em processos educativos, em que as opiniões individuais devem ser blindadas a qualquer custo, pelo receio da exposição e do mal-estar que possa ser gerado. Cada um declara o que pensa, e ninguém desenrola o diálogo a partir daí. É preciso apenas ouvir as impressões e seguir adiante. Não seria a infantilização do indivíduo o efeito colateral terrível de um comportamento assim?

Podemos ponderar: mas é melhor dizer o que pensa e sente, anonimamente, do que não dizer. Será? Se o indivíduo que se cadastra, desejoso por receber feedbacks anônimos, está lá, dando a cara a tapa neste aplicativo, por que não estaria disposto a receber de maneira mais orgânica apontamentos sobre a maneira que se comporta? A predisposição existe, afinal, ninguém é uma ilha. Nas palavras do Russo, “digam o que disserem, o mal do século é a solidão”. O século já nem é mais o mesmo, contudo, o mal permaneceu.

Curioso o aspecto de que a intenção é estimular o feedback, apesar da hierarquia. Penso sobre a solidão daqueles que ocupam as mais altas posições hierárquicas. Precisam passar a imagem de inatingíveis, e receio que alguns acabam até acreditando que assim o são. Mas, no fim das contas, permanece o isolamento e o sentido de não ter a quem recorrer. Aprendemos que pedir ajuda é para os fracos, e o bom líder é aquele que resolve o que preciso for, carregando o mundo nas costas.

As pessoas não querem ser lideradas por heróis. O próprio Pessoa suplicou: “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”. Tal súplica ressoa em mim ainda hoje. Onde é que há gente de verdade? Gente que erra, que acerta, que está disposta a se expor, está disposta a resgatar relações, contribuir com o outro, enfrentar o medo da rejeição em prol de suas crenças. No ambiente profissional, inclusive.

Se desejo expressar a minha opinião, preciso estar preparado para as reações. Isso nos obrigada a buscar melhores acabamentos em nossa forma de expressão, de modo a manter a autenticidade, mas sem precisar ser tosco e ofensivo. Posso ser mal interpretado? Sim e sempre! Mas, e daí? Em última instância, sempre haverá rotas alternativas para decidir quais ambientes julgamos frutíferos para vivenciar nossas competências.

Triste é o ser que abriu mão do direito de se expressar. Engole a seco, na apatia, pois crê que a mudança não é mais possível. Essa resignação é a morte em vida. Prefiro o silêncio ao anonimato. Todo mensageiro põe um pouco de si na mensagem que carrega. Não consigo desassociar o texto do locutor. Acredito que é assim, tentando, errando e, vez por outra, contribuindo e acertando, que vamos construir ambientes maduros e pessoas de maior hombridade. Que, pra mim, é sinônimo de uma alma nobre. Que morrerei acreditando ser algo que todo o ser humano carrega.

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